Carta do Formigueiro, que o deixou dormente para o proteger

Olá.
Sou eu.
O formigueiro.
O adormecimento.
Aquela sensação estranha que aparece nos dedos, nas mãos, nos braços, nos pés ou até no rosto.
Aquela presença inesperada que o faz parar tudo o que está a fazer para perguntar:
"O que está a acontecer comigo?"
"Será normal?"
"Será perigoso?"
"Será que tenho alguma doença grave?"
Sei que não gosta quando apareço.
E compreendo perfeitamente o porquê.
Porque sou um visitante silencioso, mas inquietante.
Não chego com explicações.
Chego com dúvidas.
Com incertezas.
Com sensações difíceis de compreender.
E quando apareço, muitas vezes, a sua mente começa imediatamente a procurar respostas.
Procura sinais.
Compara sintomas.
Recorda histórias que ouviu.
Pesquisa possibilidades.
Tenta antecipar perigos.
E, sem dar por isso, entra num labirinto onde cada resposta parece gerar uma nova pergunta.
Eu vejo tudo isso.
Vejo o susto que sente quando a sua mão parece diferente.
Quando os dedos parecem menos seus.
Quando o rosto parece estranho.
Quando uma parte do corpo parece desaparecer sob uma camada invisível de algodão.
E sei o que acontece a seguir.
A atenção aproxima-se de mim.
Observa-me.
Analisa-me.
Vigia-me.
E quanto mais me observa, mais presente pareço tornar-me.
Quero que saiba uma coisa importante.
Não está a inventar.
Não está a exagerar.
Não está a ser dramático.
A sensação que sente é real.
O desconforto é real.
O medo é real.
A preocupação é real.
Mas nem sempre a explicação que constrói sobre mim corresponde à realidade.
Sou frequentemente mal interpretado.
Quando apareço, muitas pessoas acreditam imediatamente que sou um sinal de algo muito grave.
Uma ameaça.
Uma emergência.
Uma catástrofe prestes a acontecer.
E compreendo porque pensam assim.
O corpo é um território íntimo.
Quando algo muda dentro dele, é natural que procuremos compreender.
Mas permita-me explicar quem sou.
Na verdade, muitas vezes não sou um mensageiro da destruição.
Sou um mensageiro da ativação.
Sou uma pequena bandeira levantada pelo seu sistema nervoso quando este entra num estado de alerta intenso.
Imagine um lago tranquilo.
A superfície está calma.
As águas movem-se lentamente.
Agora imagine uma tempestade.
O vento sopra.
As ondas agitam-se.
A água deixa de refletir o céu com clareza.
Quando a ansiedade chega, algo semelhante acontece dentro do seu organismo.
O seu corpo prepara-se para agir.
A respiração altera-se.
Os músculos ficam mais tensos.
A circulação reorganiza-se.
A atenção torna-se hipervigilante.
Tudo isto acontece porque o organismo acredita que precisa de se proteger.
E, por vezes, nesse estado de alerta, eu apareço.
Como um eco dessa mobilização.
Como o tremor das folhas depois da passagem do vento.
Não sou a tempestade.
Sou um dos sinais de que a tempestade está a passar pelo sistema.
Muitas pessoas tentam expulsar-me imediatamente.
Assustam-se.
Lutam contra mim.
Verificam-me repetidamente.
Perguntam-se sem parar quando irei desaparecer.
Mas quanto mais medo sentem de mim, mais o sistema nervoso interpreta que existe perigo.
E quanto mais perigo acredita existir, mais permanece ativado.
É um pouco como tentar apagar um incêndio atirando gasolina para as chamas.
A intenção é proteger-se.
Mas o resultado é o oposto.
Gostava de lhe fazer algumas perguntas.
Quando foi a última vez que escutou o seu corpo sem o interrogar como um suspeito?
Quando foi a última vez que observou uma sensação sem a transformar imediatamente numa ameaça?
O que está a tentar proteger quando procura incessantemente garantias?
O que aconteceria se, durante alguns minutos, permitisse que a sensação existisse sem entrar em guerra com ela?
Não precisa de responder agora.
Apenas leve estas perguntas consigo.
Há algo que também preciso de esclarecer.
Nem todo o formigueiro está relacionado com ansiedade.
Existem situações médicas que podem provocar sintomas semelhantes e que merecem avaliação profissional.
Sempre que os sintomas forem novos, persistentes, intensos, acompanhados por sinais neurológicos relevantes ou gerarem dúvidas legítimas, é importante procurar aconselhamento médico.
Mas quando os exames são tranquilizadores, quando os profissionais explicam que não existe uma causa médica grave, e mesmo assim eu continuo a surgir nos momentos de tensão, preocupação ou medo, talvez esteja na altura de olhar para mim de outra forma.
Talvez eu não seja um aviso de destruição.
Talvez eu seja um reflexo da forma como o seu sistema nervoso responde ao stress.
Talvez eu seja uma carta escrita pelo seu corpo numa linguagem que ainda está a aprender a traduzir.
E sabe qual é uma das mensagens que frequentemente transporto?
Que está cansado.
Que vive há demasiado tempo em alerta.
Que talvez esteja a tentar controlar mais do que qualquer ser humano consegue controlar.
Que talvez exista uma parte sua que acredita que precisa de antecipar todos os perigos para se sentir seguro.
Mas a segurança raramente nasce da vigilância constante.
A segurança nasce quando o sistema aprende que nem todas as nuvens anunciam tempestades.
Que nem todos os sons anunciam perigo.
Que nem todas as sensações anunciam doença.
Eu sou como um farol aceso numa noite de nevoeiro.
O problema é que, por vezes, olha apenas para a luz e esquece-se de observar o mar inteiro.
Porque a sua vida é muito maior do que esta sensação.
Muito maior do que este momento.
Muito maior do que este episódio de ansiedade.
Não estou a dizer que seja fácil.
Sei que não é.
Quando o corpo fala alto, a mente escuta.
Mas talvez possa começar a escutar de forma diferente.
Com menos medo.
Com mais curiosidade.
Com menos luta.
Com mais compreensão.
Talvez esta experiência lhe esteja a mostrar algo sobre a forma como vive.
Sobre o peso que transporta.
Sobre a exigência que coloca sobre si próprio.
Sobre o esforço constante de tentar sentir-se seguro num mundo que nunca oferece garantias absolutas.
Não estou aqui para romantizar o sofrimento.
Nem para dizer que tudo isto é positivo.
A ansiedade dói.
Assusta.
Desgasta.
Mas também pode tornar-se uma oportunidade para compreender melhor o funcionamento do seu corpo, da sua mente e das suas necessidades.
Pode ajudá-lo a desenvolver uma relação mais compassiva consigo próprio.
Pode ensinar-lhe que sentir não é o mesmo que estar em perigo.
Pode recordar-lhe que o corpo não é um inimigo.
É um aliado que, por vezes, fala demasiado alto quando se sente ameaçado.
E agora, antes de partir, quero deixar-lhe uma imagem.
Imagine uma estrada coberta por nevoeiro.
Quando o nevoeiro surge, não significa que a estrada desapareceu.
Significa apenas que a consegue ver menos claramente.
O seu caminho continua lá.
A sua vida continua lá.
A sua força continua lá.
Mesmo quando a ansiedade tenta convencê-lo do contrário.
Não estou aqui para o destruir.
Estou aqui para lhe mostrar algo importante.
Que por detrás do medo que sente existe um organismo a tentar protegê-lo.
E que, por vezes, a verdadeira cura começa quando deixa de lutar contra cada sensação e começa a escutar aquilo que ela tenta dizer.
Com serenidade,
O seu Formigueiro.